Nada era mais adulto do que preencher um cheque

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Observava atentamente como os meus pais escreviam sobre aquela folha para seguir à risca quando eu crescesse e chegasse a minha vez. Ao lado do último zero do valor, no topo à direita, recomendava-se acrescentar um sustenido.

Em seguida, escrever por extenso o valor. Parecia tema do colégio: trezentos e quarenta e cinco cruzeiros e oitenta e nove centavos. Após assinar e marcar a data, o pai fazia rapidamente uma série de traços paralelos que davam toda a elegância para aquele rito. “Tem que cruzar”, dizia ele.

Às vezes, o atendente pedia que se acrescentasse no verso o número de um telefone. Quantos cheques sem fundos voaram no mercado até então, embora isso não significasse muito para quem planejava um calote. Em outras ocasiões, o pai pedia para que a pessoa também assinasse atrás. “Tem que endossar”, dizia ele.

O tempo passou e chegou a minha vez. Com 17 anos e após ingressar no meu primeiro emprego, recebi um talão de cheques novinho do Banrisul. Decidi estrear na Manlec, após insistência da mãe em comprar uma escrivaninha nova para o meu quarto. Levei a caneta de casa, afinal seria o ápice da minha fase adulta. Pela primeira vez, aquele garotinho que brincava de Banco Imobiliário assinaria um cheque de verdade. Poderoso? Rico? Que nada!

Esqueci que o meu salário era tão minguado que não foi possível pagar aqueles R$ 350 à vista. Preenchi 10 cheques de R$ 35. O braço cansou, a graça acabou e conheci a verdadeira sensação de que a vida real na fase adulta não é apenas o charme de escrever um papelzinho.

Crédito ou débito? Hoje em dia, até prefiro ouvir essa pergunta.



Sabe por que o auditório do Silvio Santos é composto só por mulheres?

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A explicação é bastante simples e foi revelada pelo apresentador Ratinho. Afinal, qual o motivo de Silvio Santos contar apenas com colegas de trabalho do sexo feminino na plateia?

O homem do baú observou que uma mulher fica mais inibida quando está ao lado de um homem. Lembre-se que estamos falando da década de 60. Nessa situação, ela aplaude pouco e não reage com toda a naturalidade, sobretudo em razão dos sujeitos serem, em geral, muito mais comedidos.

Silvio percebeu que, por outro lado, elas entram no “ritmo de festa” quando estão reunidas e deixam de sentir qualquer receio do que a pessoa da cadeira vizinha possa pensar. O resultado é um programa com muito mais alegria e espontaneidade.

Como diz aquela música recente, “se ela sozinha já é um perigo, imagina com as amigas”.

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Por onde anda o guri do cigarrinho de chocolate Pan?

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Como alguém pôde ter tido uma ideia dessas? Hoje em dia, entendemos o absurdo, mas os cigarrinhos de chocolate Pan ficaram nas prateleiras por décadas. “Fumei” muitos desses na infância por serem baratos.

O que intriga é demorarem tanto para perceber o quanto era politicamente incorreto. Os cigarrinhos Pan foram lançados nos anos 50 e apenas mudaram de nome na década de 90. Viraram “rolinhos de chocolate”.

Nunca senti a mínima vontade de fumar cigarros de verdade por causa desse doce. Sabe lá se houve alguém que logo se viciou seriamente. A orientação precisa vir dos pais. Entretanto, compreendo os antitabagistas. O fato de como a criança segura o cigarrinho, seu gestual e pose podem provocar a falsa sensação de que fumar é elegante e bonito.

A única dúvida que eu tinha era por onde anda o menino da embalagem? Tornou-se fumante inveterado? Ou comeu todos os chocolatinhos? Segundo o próprio ator e diretor Paulinho Pompéia, nenhuma das opções.

A foto foi tirada em 1959 quando ele tinha 11 anos (hoje, ele tem 67 anos) e foi convidado por um diretor da Pan após chamar a atenção durante uma apresentação no Circo Garcia, onde atuava. Nunca fumou e não comeu nem mesmo o chocolate usado para a foto da embalagem.

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Na Globo, Paulinho chegou a participar de Perigosas Peruas, O Mapa da Mina, Malhação e Telecurso 2000. Atuou nos seriados Castelo Rá-Tim-Bum (TV Cultura), Turma do Gueto (Record) e em mais de 30 peças teatrais.

Atualmente, o cara leciona cursos e palestras para jovens atores. Espia um vídeo recente dele.



As garrafinhas da Coca-Cola

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Esse era o melhor enfeite da casa da vó Ninha. As minigarrafinhas. Difícil apenas observá-las de longe. Lendas rondavam aquele minúsculo engradado da Coca-Cola.

A principal delas é a de que, em vez de refrigerante, havia veneno. A justificativa da vó foi convincente:

– O líquido mata os mosquitos. Por isso, as garrafas ficam aqui na instante.

Atiçou ainda mais a curiosidade. Queria apenas abrir para ver como era. Sendo Coca ou não, jamais beberia o conteúdo. Pensava que poderia estar com o prazo de validade vencido. Vai saber?

A solução era brincar escondido. Certa vez, resolvi tirar a tampa e solucionar de vez o mistério. Vinha muito grudada, por isso a necessidade de quebrá-la. Com bastante força, arranquei a ponta daquele diminuto recipiente. Decepcionante. Nada além de uma tinta preta revestia o vidrinho por dentro.

Não havia bebida nenhuma. Dizem que as mais antigas continham Coca de verdade. Arranjei Super Bonder, colei a tampa e devolvi ao lugar sem que ninguém desconfiasse.

Entendi que a história do tal veneno tratava-se de uma desculpa esfarrapada para que eu não brincasse com as garrafinhas e, por conseguinte, não as derrubasse. Mesmo tendo perdido a graça, houve um dia em que a vó me pegou no flagra.

– Não mexe aí. É para matar os mosquitos!

Respondi na lata:

– Só se for de vergonha!

Tadinha. Morreu sem nunca saber o que eu queria dizer.


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