Colégio Category Archives


O Word da nossa época

stencil_1

Em tempos nos quais não se dispunha de computadores e impressoras, havia uma técnica para padronizar a escrita e evitar garranchos ilegíveis: o estêncil. Gabarito de letras, para os íntimos.

Eram fôrmas de todo o alfabeto, muito usadas para elaborar cartazes. Ao preencher os espaços vazios, formavam-se as palavras. Item facilmente encontrado nas lojas de material de escritório.

Costumávamos fazer a capa dos trabalhos escolares com tais estênceis. Um capricho só. De tanto usar, sobretudo como brinquedo, algumas letrinhas foram desaparecendo. Perdi as letras A e M. Percebi o sumiço quando precisei montar um “TRABALHO DE MATEMÁTICA”.

Todos sabíamos a solução mais simples. Já que faltava o A, usava o V ao contrário. O mesmo truque servia para o M, que bastava riscar o W invertido. Não ficava igual, porém quebrava o galho.

Trabalho em grupo? Eu sempre largava na frente: “deixa que eu faço a capa!”.



Um talento perdido da patinação

patins

Naquela época, havia o incentivo à patinação na minha escola. O Dom Bosco era referência nacional. Cediam os patins, incluíram o esporte na grade escolar e ainda abriram matrículas para os que quisessem ter mais aulas à tarde.

Modéstia à parte, eu levava muito jeito. Sempre tive coragem e equilíbrio sobre as rodinhas. A única dificuldade era o peso daqueles patins, que eram exatamente como o da foto acima. Calçava 32, lembro-me bem.

Certa vez, fui convidado para uma grande apresentação. Foram três semanas de ensaios até a grande noite. Na coreografia, por ser o mais baixinho, fui o primeiro a surgir de trás das cortinas. Deu tudo certo. Nenhuma queda, nenhum erro. Porém, percebi que, na plateia, faltava o meu pai.

Anos depois, minha mãe revelou:

– Ele não quis ir, disse que não gostaria de ver o filho “bailarino”.

Abaixo, alguns registros que encontrei da pista de patinação do Dom Bosco.

patinacao_dombosco_3

patinacao_dombosco_1

patinacao_dombosco_2



Minha dificuldade com Física (homenagem ao prof. Oppermann)

Observei o professor Bruno de Souza, do Fênix Vestibulares, tirando dúvidas de uma aluna sobre Física. Lembrei do quanto tal disciplina foi o meu pavor desde os tempos de colégio.

Durante todo o ensino médio, lá no Dom Bosco, quem lecionou foi o professor Roberto Oppermann. Lamento que só depois de formado que soube enxergar o valor dos três anos de convivência com ele em sala de aula.

Sim, por que, quando nos saímos mal numa matéria escolar, surge o péssimo hábito de culpar o professor. Ele me persegue. Ele não gosta de mim. Ele quer me ferrar. O fulano é o queridinho dele.

Se naqueles anos 90 eu tivesse mais maturidade, entenderia que a melhor forma de quebrar a barreira – que era minha – bastava estudar mais e, assim, provocar o orgulho nele. Mas não adianta. Parece que é da natureza humana o atalho de transferir a responsabilidade.

Em 1997, peguei recuperação em Física. Fui um fiasco e não venci. Naquele ano, e só naquele ano, houve a recuperação da recuperação. Que sorte! Tive uma terceira chance. Troquei o Natal por estudos intensos sobre cinemática, mecânica, hidrostática e todos os conteúdos que eu deveria dominar desde março. Como emergência, minha prima Luciane, com o cartão de visitas de recém ter sido aprovada em Enfermagem na UFRGS, passou o dia lá em casa quebrando a cabeça comigo.

No dia, o professor aplicou exatamente a mesma prova anterior. Até hoje, tenho dúvidas se passei mesmo. Desconfio, inclusive, que ele possa ter se equivocado na correção. Não consigo medir o atraso que significaria aquela reprovação. O prejuízo seria muito maior do que um ano da minha vida ou de pagamento de mensalidades. Certamente, a minha autoestima teria muita dificuldade para reagir ao golpe.

Foi ao contrário. O susto valeu que, nos dois anos seguintes, não mais fiquei com a corda no pescoço. Jamais tirei nota dez em Física, contudo a minha prima nunca precisou ser acionada novamente para me salvar.

O Oppermann também me ensinou língua portuguesa. Embora seja jornalista, formado há dez anos, é dele que lembro quando preciso enriquecer e objetivar um texto. Numa prova sobre conceitos, quando imaginei tirar a primeira nota máxima na matéria, quebrei a cara. Respondi todas as questões com a palavra “aquilo”. O que é intensidade da corrente elétrica? Aquilo que se mede com a carga dividida pelo tempo. Aquilo?! Pois acumulei meio certo e bailei.

Não há ex-aluno do Dom Bosco que não recorde com carinho e calafrios de quando, a qualquer momento, anunciava-se: “numa folhinha: nome, número e turma, primeira questão…”. Ah, as provas surpresas!

Acima de tudo, o Oppermann sempre pregou a honestidade. Aulas as quais interrompia a explicação sobre espelhos côncavos e convexos para contar histórias marcantes de vida. O que seria do chaveiro se todas as pessoas fossem honestas? Questionou-nos, certa vez, encostado na porta da sala.

Quem disse que bom professor ensina apenas o conteúdo necessário para a aprovação? Na minha profissão, uso raramente os conhecimentos de Física que o Oppermann tentou me transmitir. No entanto, adoto o que mais valioso ele nos disse em sala de aula.

Um verdadeiro mestre!

Gostaria muito que meus filhos tivessem aula com o Oppermann, porém com notas bem melhores em Física, evidente.

Na foto acima, à esquerda, aparecem o padre Gilson, ex-diretor, e a professora Clarice.



Põe no Google, ou melhor, na Barsa!

Tratava-se de uma coleção de sabedoria. A Enciclopédia Barsa era a fonte dos trabalhos escolares desde 1969, quando foi lançada.

Não custava barato. Herdei do meu primo Digo, que havia ganho uma versão mais atualizada. Ostentar uma Barsa na estante significava luxo.

Se a professora pedia tema de casa sobre a Revolução Francesa, buscava-se no livro com a letra R as informações necessárias. A chance dos demais colegas também terem consultado a mesma fonte eram enormes.

Não há enciclopédia que consiga acompanhar o ritmo e concorrer com a Internet. Hoje em dia, a gurizada chega na escola com os trabalhos copiados da Wikipédia na maior cara de pau. Além de uma referência insegura, os textos são paupérrimos.

Apesar das vantagens da tecnologia, gosto de lembrar do quanto era bom pesquisar na Barsa. O Google do século 20. A vida passava em outra velocidade.